31 de outubro de 2005

CULTURA DESTE LADO DO MAR

Passo a vida a fazer figura de ignorante respondendo à pergunta "Já leu o escritor x". Julgava ter lido alguma coisa de literatura brasileira contemporânea, mas parece que não. São tantos os nomes que só me resta dizer "Nunca li". Verdade seja dita que por aqui, mesmo entre as camadas mais eruditas o desconhecimento é igual. Saramago, Pessoa e Eça estão totalmente integrados no imaginário. Mas Sophia é uma desconhecida fora dos meios universitários, bem como Herberto H. e por aí fora.
Por outro lado, começa a falar-se dos nomes novos da literatura portuguesa, com alguns equívocos pelo meio. Enfim, por algum lado teremos de começar. O que me conduz à pergunta:
O QUE ANDAM A FAZER OS NOSSOS ADIDOS CULTURAIS, EMBAIXADORES, CONSULES E QUEJANDOS? Quer dizer: além de roçarem o cu pelas cadeiras antigas e ganharem uma fortuna, enquanto um país inteiro se mantém convencido que Portugal é um país de idiotas, prepotentes e provincianos. Mas essa questão por ser demasiado séria e irritante ficará para um post... posterior.

27 de outubro de 2005

SÃO SALVADOR
"A terra de nosso senhor, nosso senhor de bonfim... Bahia oooohh...."

O autocarro cheirava um bocado mal. Mas quem me mandou escolher o lugar 37, junto à casa de banho, onde ninguém deveria defecar. Na madrugada, quando o corpo doído da tentativa de imaginar uma cama num assento duplo já se repousou, chega-se no terminal moderno.
Quem chega do interior é como se chegasse da dor: temos vontade de nos lavarmos no mar, na alegria musical, na perfeição física que nos espanta.
A estátua de Castro Alves, o poeta, espreita a água lá embaixo, não longe da encosta que os portugueses galgaram e mais tarde se encheu de putaria. E de putaria esteve o Pelourinho cheio, a zona central que inspirou Jorge Amado. Por todo o lado se avistam as páginas lidas: Jubiabá virou stand de automóveis, Gabriela é nome de cachaça com mel e canela, Teresa Batista e Pedro Archanjo são ruas onde a música explode a toque de percursões várias.
Mesmo trazendo o estigma da nacionalidade invasora fazem-nos sentir em casa. Mulatas e negras lindas nascem da calçada que mudou de nome, enquanto os "negões" se chegam às turistas brancas, muitas louras, e quem sabe onde a noite irá parar.
Chega-se a Salvador e percebe-se por que todos os lugares estão cantados. "Naararamm em Itapuã...".

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22 de outubro de 2005

DICIONÁRIO

Quando se viaja pelo Brasil, há palavras que convém saber.

MURIÇOCA: coisa irritante que vem não se sabe de onde e nos tira o que nos faz falta. O mesmo que mosquito.
MOLEQUE: o mesmo que muriçoca: PÉ DE... Coisa que no Brasil se come.
CORAL: animal que não se deve pisar.
CASCAVÉL: o mesmo que Coral, mas mais discreta, com excepção do guizo (TSSSSSSSSSsssss)
POLÍTICO: Muriçoca que gostaria de ser Coral. Pessoa mais cara de subornar que um polícia de trânsito. (ver "Mensalão").
POVO: local onde o político coloca o pé para não ser picado pela honestidade.
O BLOGUE

Enquanto faço as intermináveis viagens de "ónibus", neste país-continente, ou atravesso de balsa um rio onde os turistas se esqueceram de ir, penso como gostaria de ir partilhando isso com os leitores do Prazer_Inculto.
Mas depois o tempo falta. E os cyber-cafés encontram-se frequentemente fora de mão.
Vai-se fazendo o que se pode.
CHAPADA DIAMANTINA
Há poucos locais na terra assim tão interessantes. O desenho rectangular das montanhas, a lembrar os canyons americanos (mas em verde), as florestas e os rios que pedem que se cruzem para cá e para lá. As cachoeiras que surgem no final dos percursos difíceis e lavam todo o esforço.
Ainda bem que a tv só fala no Rio e na violência do Brasil. Mais sobra para quem se faz à estrada e descobre que a beleza tem muitas formas.
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17 de outubro de 2005

VALE DA LUA

Quando achamos que já vimos tudo, descobrimos o Vale da Lua. Ou, dezenas de horas de autocarro depois, a Chapada Diamantina. E aí, a surpresa, recomeça.

7 de outubro de 2005

MILHARES DE QUILÓMETROS DEPOIS
Para quem chega de mochila às costas, as sandálias ainda com restos de lama do rio Tapajós e os olhos cheios das dificuldades do povo do nordeste, das histórias dos caboclos que vivem com e da floresta, Brasília impressiona.
Avenidas largas numa cidade desenhada em forma de asa de avião, cortada a meio pela fuselagem. O projecto do presidente Juscelino, em finais dos anos 50 transformado pela mão de grandes arquitectos numa maravilhosa metrópole. Por algum tempo descanso do esforço de atravessar um país com tanta beleza como problemas sociais, um povo gentil na sua grande maioria atormentado, noutros lugares pela insegurança e pelas consequências da pobreza terceiro mundista.
Pouco desse Brasil se vê nesta Brasília exaltante de edifícios e civilidade.
Sento-me no interior dos vitrais azuis do Santuário Dom Bosco e respiro antes de voltar a pôr a mochila às costas.
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